domingo, 27 de setembro de 2009

Intervalo

Nada tendo em mente, de momento, para ser partilhado, deixo apenas excerto com que muitas vezes me indentifico:

"Antefalhei a vida, porque nem sonhando-a ela me apareceu deleitosa. Chegou até mim o cansaço dos sonhos... Tive ao senti-lo uma sensação externa e falsa, como a de ter chegado ao término de uma estrada infinita. Transbordei de mim não sei para onde, e aí fiquei estagnado e inútil. Sou qualquer coisa que fui. Não me encontro onde me sinto e se me procuro, não sei quem é que me procura. Um tédio a tudo amolece-me. Sinto-me expulso da minha alma.

Assisto a mim. Presenceio-me. As minhas sensações passam diante de não sei que olhar meu como coisas externas. Aborreço-me de mim em tudo. Todas as coisas são, até às suas raízes de mistério, da cor do meu aborrecimento.

A mínima acção é-me dolorosa como uma heroicidade. O mais pequeno gesto pesa-me no ideá-lo, como se fora uma coisa que eu mesmo pensasse em fazer.

Não aspiro a nada. dói-me a vida. Estou mal onde estou e já mal onde penso em poder estar.

O ideal era não ter mais acção do que a acção falsa de um repuxo- subir para cair no mesmo sítio, brilho ao sol sem utilidade nenhuma a fazer som no silêncio da noite para que quem sonhe pense em rios no seu sonho e sorria esquecidamente."

3 comentários:

Dario disse...

Magnifico! quem escreveu isto? é tudo o que sinto e mais!

Dora disse...

Adorei o excerto...

afinal quem o escreveu?

Dario disse...

É de um dos heterónimos de Fernando Pessoa, Bernardo Soares!

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